Lao Qigong

Qigong (chi kung) é, sem sombra de dúvida, a mais emblemática dentre todas as práticas de artes marciais. Qi (pronuncia-se tchi) em coreano e japonês é ki e na yoga é prana ou kundalini, todos nomes diferentes para a mesma coisa: energia. Gong significa trabalho, assim temos na tradução literal algo como “trabalho com a energia”. Então qigong é uma prática de regulação, controle ou reorganização da energia.

Jerônimo Marana e mestre Cai Wen Yu

Jerônimo Marana e mestre Cai Wen Yu

Qigong costuma ser associado a práticas espirituais por ter sido muito desenvolvido na China principalmente pelos monges taoístas e budistas. Na Índia foi muito desenvolvida pelos hindus (yoga pode ser considerado um tipo de qigong). Por esse motivo, a palavra energia gera desentendimento e ceticismo em tempos regidos pela ciência moderna cartesiana. Isso acontece porque geralmente dá a ideia de superstição, misticismo, de algo esotérico ou de alguma força sobrenatural. Isto é fruto do desconhecimento científico por parte de grande parte das pessoas, sejam elas professores, alunos ou leigos.

Quando se fala em energia é preciso compreender que apesar das crenças não existe nenhum poder sobrenatural envolvido. Qigong  não pode ter fé, não pode ter crença e nem ser algo abstrato. Deve que ser objetivo e demonstrável, tem que ser real e, como em qualquer ciência, precisa de provas, porém sem truques. Quebrar tijolos e entortar lanças são truques de física que podem ser executados por qualquer pessoa, portanto não são qigong.

O que é então esta prática? Qigong nada mais é do que reorganizar o corpo para que tenha o máximo de aproveitamento de sua energia. O objetivo é recuperar a vitalidade do corpo animal, atingindo altíssimos níveis de força com mínimo gasto energético.

Lao qigong

Lao qigong é um sistema que cumpre esse papel, que realmente entrega o produto oferecido. Os resultados começam a aparecer com poucos meses, semanas ou dias de prática, muitas vezes até na primeira aula. “Lao” significa antigo, fazendo referência às antigas práticas de qigong, originais, pois com o passar do tempo e mudanças que ocorreram na China muito se perdeu, restando mais lendas do que verdades.

Este sistema foi desenvolvido pelo mestre Cai Wen Yu. Natural de Pequim, Cai (pronuncia-se Tsai) começou a praticar baguazhang (pa kua) e xingyiquan com seu pai, Cai Jin Bao. Aos 20 anos começou a praticar o estilo yiquan com o mestre Yao Zongxun. Mestre Yao (1917-1985) foi herdeiro do estilo yiquan e aluno direto do fundador Wang Xiangzhai. Após o falecimento do mestre Yao, Cai treinou com outros alunos diretos de Wang. Pode-se dizer então que o lao qigong nasceu da essência do yiquan. Na sua construção mestre Cai acrescentou os seus conhecimentos de outras práticas marciais, como o xingyiquan e o baguazhang.

O mestre Cai Wen Yu é autor do livro Lao Qigong: a antiga arte chinesa de lutar, curar, viver. Este livro está disponível em inglês em versão para kindle no Amazon. Clique aqui ou na imagem ao lado para adquirir. Em português é encontrado na versão impressa e em pdf, que pode ser adquirida nesta página.

Zhan zhuang

Professor Jerônimo marana em postura de zhan zhuang

Jerônimo Marana em postura de zhan zhuang

Lao qigong é fundamentado nas posturas de zhan zhuang, cuja origem está no xingyiquan. Foram amplamente enfatizadas no yiquan e divulgadas pelo mestre Wang Xiangzhai. Wang foi derrotado em sua vida apenas três vezes e por mestres com quem ele estudou. Ele sempre creditou suas habilidades ao fato de praticar as posturas de zhan zhuang, cuja postura mais famosa foi adotada por diversos estilos. Alguns exemplos de estilos que a adotaram são o taijiquan (tai chi chuan) e o karate kyokushin. Conhecida erroneamente como “abraçar a árvore”, seu significado pode ser traduzido mais precisamente como “ficar em pé como uma árvore”.

Lao qigong é portanto uma forma de qigong marcial, pois desenvolve a força e a velocidade dos golpes por meio da consciência e reorganização corporal. Isso acontece porque requer uma sensibilidade muito apurada e para atingi-la o sistema nervoso central é muito estimulado, o que o desenvolve bastante. O ensino é sempre contextualizado com as artes marciais, pois a arte marcial é filha do qigong. Portanto, qualquer estilo ensinado pelo mestre, seja yiquan, xingyi ou bagua é fundamentado no qigong, de modo tal que todo movimento, todo passo, chute ou soco é e possui qigong.

Outro conceito importante neste sistema é que nele não existe a divisão entre qigong terapêutico, marcial e espiritual. Lao qigong trabalha nos três níveis, pois antes de desenvolver as qualidades de arte marcial, é preciso primeiro curar o corpo e devolver-lhe a saúde, pois sem ela é impossível lutar utilizando o corpo adequadamente, o que desperdiça energia. No nível espiritual, o que não quer dizer religioso de forma alguma, o praticante inevitavelmente lida com a preguiça, raiva, frustração, medo, ansiedade, impaciência e outros hábitos de comportamento que interferem negativamente no seu progresso. Assim, lidando com estes hábitos o praticante melhora o seu ser.

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