Shaolin do Norte Vs. Hapkido

No último artigo eu mencionei que não há melhor arte marcial, mas sim melhores métodos de treino. Se você não leu o artigo, você pode acessá-lo clicando aqui. Nele eu explico como as diferenças geográficas e culturais fizeram surgir tantas artes marciais diferentes. Na verdade, arte marcial é uma coisa só. Elas apenas tem – emprestando um termo do Marcelo Antunes, presidente da Confederação Brasileira de Shuaijiao e autor do blog do Shuaijiao Brasil – “sotaques” diferentes. Por isso, precisamos parar de separar as artes marciais por estilo e enxergá-las como um todo. Para provar isso, eu vou analisar a mesma técnica vista sob a ótica do shaolin do norte e do hapkido.

Para isso, vou utilizar um movimento do terceiro taolu (forma) de shaolin do norte, chamado zuoma quan. Traduzido para o português, o nome dele é algo como “o giro do falcão e postura do tigre agachado”. Eu nunca soube qual era a sua aplicação até aprender a minha primeira torção no hapkido. Então eu enxerguei essa torção nesse movimento do zuoma quan. É importante dizer que essa é uma dentre várias interpretações possíveis do movimento. Nas artes marciais chinesas é frequente que os movimentos tenham várias interpretações completamente diferentes umas das outras. A riqueza das formas nas artes marciais chinesas é justamente a riqueza de possibilidades em cada movimento.

Entendendo o shaolin do norte a partir do hapkido

Para a compreensão desta aplicação de shaolin do norte, vou explicar brevemente sobre três princípios contidos nesta técnica. Existem muito mais do que três dentro deste movimento, mas para este artigo vou mencionar apenas três. É importante compreendê-los e praticar pensando neles, independente da técnica. Se você quiser saber como aplicar técnicas como essa em situações imprevisíveis, baixe o meu ebook gratuito “10 dicas para praticar a imprevisibilidade”.

Agora um pouco da história de como eu descobri essa aplicação. Eu havia praticado shaolin do norte por mais de 16 anos e sabia a forma zuoma quan há muito tempo. Mas eu nunca soube qual era o sentido do “giro do falcão e tigre agachado”. Foi preciso uma aula de hapkido e um pouco de imaginação para finalmente compreender que estava contido no movimento. Falo imaginação porque é preciso ter capacidade de abstração para enxergar estas coisas. É preciso pensar além do óbvio e para isso é necessário ter essa capacidade imaginativa, essa criatividade.

Primeiro princípio: alavanca

O primeiro deles, é o princípio da alavanca, neste caso aplicada contra o punho do agressor/atacante. Esse é o princípio que define o golpe a ser executado. Existem muitas formas de se fazer alavancas contra uma mesma articulação. Aqui, o defensor executa a alavanca com sua mão esquerda contra o punho esquerdo do atacante. A mão direita auxilia a esquerda fazendo pressão com a palma contra as costas da mão do atacante.

shaolin do norte

Claro que aqui estou simplificando, apontando apenas para alguns pontos de referência. Estou excluindo alguns detalhes sobre como segurar a mão do parceiro, com quais partes da mão aplicar as forças, etc. Mas a regra geral é procurar a posição mais confortável e que gasta menos energia. Técnica eficiente é sempre confortável.

shaolin do norte

Segundo princípio: torcer o próprio corpo

A ideia básica deste princípio é o de fazer em você o que você quer provocar no oponente. No combate, os oponentes formam um sistema único, não há como enxergar um separado do outro. Ambos funcionam em conjunto: é preciso que haja harmonia para haver oposição. Portanto, em situações de agarramento, como projeções ou torções, o que você faz ao seu corpo produz um efeito no corpo do adversário. Não importa se a arte marcial é o shaolin do norte, hapkido, aikido, judô ou o que quer que seja. Isso funciona igualmente em todas.

Então para aplicar uma torção contra o corpo do oponente eu preciso aplicar uma torção no meu próprio corpo. A diferença é que no meu corpo a torção não é lesiva, é apenas uma força em espiral. Essa força vai ser transmitida para o corpo do parceiro, que consequentemente vai responder sendo torcido. Em uma projeção eu preciso trazer o adversário suficientemente perto de mim e aplicar a força contra o meu corpo. Como o parceiro está agarrado ao meu corpo, ele sofre a ação da força aplicada ao meu próprio corpo.

Terceiro princípio: movimentação para diferentes direções

Este é o elemento que me permitiu enxergar que a forma de shaolin do norte contém um jeito diferente de fazer o mesmo golpe que eu aprendi no hapkido. Inicialmente eu aprendi duas variações do mesmo golpe no hapkido: uma para frente e para trás e outra para fora. Mas quase instantaneamente, eu tive um insight e identifiquei o mesmo golpe contido na forma zuoma quan. A diferença é que a direção para onde é feito o golpe é para dentro, diferente das que eu havia aprendido no hapkido.

É claro que é possível fazer o mesmo golpe para várias direções diferentes. No início talvez você possa aprender uma ou duas direções. Mas com o tempo é preciso experimentar e descobrir outras. Assim, surgem inúmeras variações do mesmo golpe.

Shaolin do norte e hapkido: diferentes?

É claro que existem sim diferenças entre as duas artes marciais, porque o enfoque de cada uma é diferente. A característica principal do hapkido são as torções, enquanto o foco do shaolin do norte é mais diluído entre diferentes tipos de golpes. Por isso, foi mais fácil compreender a torção contida na forma por meio de uma arte marcial que foca nas torções. Mas existem diferenças no modo de fazer, porém não na essência.

Então, ambas as artes marciais possuem o mesmo golpe, mas por alguma razão, executados de maneiras distintas. Significa que no hapkido ninguém sabe fazer do mesmo jeito que no shaolin do norte e vice-versa? Não! Significa que por algum motivo o golpe foi ensinado de forma diferente. Talvez quem codificou a técnica em cada estilo simplesmente não pensou na outra possibilidade de como fazer. Só isso, porque essencialmente, o golpe é o mesmo. As duas opções são apenas jeitos diferentes de se fazer a mesma coisa.

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