Evite A Comparação Entre Crianças

Um dos cuidados que o professor deve ter ao ensinar crianças é evitar a comparação. A comparação entre crianças aparece de diversas formas, às vezes sutis, às vezes tidas como normais. Mas a comparação entre crianças é uma das diversas razões pelas quais muitas ficam traumatizadas com a modalidade e acabam desistindo.

Recentemente uma mãe de uma criança faixa branca de judô me perguntou se eu sabia alguma coisa sobre exames de judô. O problema era que o filho dela não entendia porque ele ia para a faixa branca com ponta cinza, enquanto o amigo dele, também da faixa branca, ia direto para a faixa cinza. Tínhamos aqui um caso clássico de comparação entre crianças, então resolvi que chegou o momento de abordar esse assunto.

Experiência pessoal com a comparação

É comum os professores afirmarem que as crianças devem aprender com a derrota, com a comparação e a se esforçar mais. É normal também os professores utilizarem a comparação entre crianças como método de ensino. É normal, porém não é ideal.

É verdade que as crianças precisam aprender com a derrota e a se esforçar, mas há um momento certo para isso.  Isso porque não é fácil para uma criança ser comparada com outra, especialmente um amigo mais próximo. Vou contar uma história para ilustrar.

Quando eu era criança eu participei do meu primeiro campeonato, que era um campeonato interno da academia que eu frequentava. Era uma academia de kung fu. Eu participei na modalidade que hoje se chama sanda (num molde que hoje eu considero inadequado para crianças). Eu fiz uma luta e perdi, ficando em segundo lugar. Na época eu tinha 7 anos.

Eu tinha um amigo de 5 anos que morava perto da minha casa. A gente ia juntos para a academia, a mãe de um levava e a do outro buscava. Ele também participou do campeonato, só que não havia uma criança da mesma idade e peso para competir com ele. A solução que o professor encontrou foi pedir para um aluno mais velho lutar com ele e deixar ele ganhar. Meu amigo ficou em primeiro e eu fiquei em segundo, arrasado por não ter ficado em primeiro também.

A comparação entre crianças gera frustração

Quando eu cheguei em casa minha mãe percebeu como eu estava me sentindo. Ela me perguntou se era porque eu não tinha ficado em primeiro e eu respondi que não. Embora fosse óbvio que sim, na verdade não era só o fato de ter ficado em segundo. O que doía era que eu tinha ficado em segundo e o meu melhor amigo ficou em primeiro. Eu queria ter ficado em primeiro como ele.

O fato é que é muito difícil para a criança perder em público. Mas mais do que isso, é mais difícil perder e ver o seu amigo ganhar. O problema para mim não era a medalha em si. Era a comparação que ela gerava entre eu e o meu melhor amigo. E isso eu acho que minha mãe não foi capaz de perceber.

Você pode estar pensando que eu estou falando isso por causa da minha experiência. Mas ela não é única e para te mostrar eu vou contar outra história.

O sentimento de ser comparada é comum entre as crianças

Quando eu era instrutor nessa mesma escola, durante um exame eu tive uma ideia. Havia entrega das medalhas de destaque logo após a entrega das faixas. A ideia que eu dei para o meu professor foi a de entregar a faixa para o destaque junto com a medalha. Isso ia gerar uma tensão, um suspense, uma dúvida no aluno sobre ter passado ou não. E logo após a tensão viria a surpresa da medalha.

A ideia, a princípio, parecia brilhante. Era um exame de adultos. O problema foi que isso foi adotado no exame de crianças. Foi aí que eu me arrependi da ideia que eu dei. O que aconteceu foi que várias crianças choravam porque viam os colegas receberem a faixa nova e elas não. Na hora que elas recebiam a faixa com a medalha outras choravam porque não foram destaque.

O fato é que toda criança queria ser destaque. Toda criança quer e precisa ser reconhecida e isso gerava o efeito contrário. As crianças se frustravam e depois sobrava para os pais lidar com isso. Nós professores não ficávamos sabendo nada sobre o que acontecia depois disso. E nem sempre os pais sabem como lidar com a comparação entre crianças.

A comparação entre crianças não é uma boa prática pedagógica

comparação entre crianças

Quando esse tipo de coisa acontece os professores costumam dizer que a criança precisa aprender com isso. Quando elas não entendem que não foram tão boas quanto fulano, eles dizem que arte marcial não é para qualquer um, que elas não tem o dom ou que não nasceram para isso. Isso é uma grande mentira, que eu expliquei neste artigo aqui. É preciso tomar cuidado com isso. Os pais precisam estar atentos a isso, pois não é uma boa prática pedagógica. Pelo contrário, isso pode causar danos psicológicos sérios às crianças.

Você pode pensar que isso não é nada, que é algo muito simples, mas é simples para nós que somos adultos. Não devemos medir o mundo da criança pela escala do adulto. Algo simples para nós pode ser extremamente complexo para o entendimento da criança.

Por isso é preciso evitar ao máximo gerar comparação entre crianças. Competições para crianças novas não deveriam ser em formato de competição, mas sim em formato de festival, onde todas são premiadas igualmente ou nenhuma é premiada. Assim elas se sentem iguais e com o mesmo valor que as outras.

A competição deve ser para crianças mais velhas, de 9 ou 10 anos, que já estejam mais maduras. E ainda assim, é preciso avaliar cada caso, porque cada criança é um indivíduo único. O fato de ser mais velha não significa que ela já está madura para perder em público.

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